Por Antônio Oliveira

Funcionário de carreira aposentado e ex-chefe geral da Embrapa Algodão (PB), Sebastião Barbosa assumiu, dia 10 de outubro passado, com uma missão fundamental para a continuidade da estatal de pesquisa agropecuária seguir em frente, fazendo da sua parte para a qualidade e competitividade dos setores produtivos rurais e demais áreas de ciências e tecnologias do Brasil.

– Nós precisamos ser muito criativos para estabelecer prioridades, considerando a nossa limitação de quadros de pessoal e nossos recursos financeiros para levar esta programação avante – disse, em entrevista exclusiva á este repórter, na sexta-feira, 16, na sede da empresa em Brasília.

Foi uma entrevista marcada pela sinergia entre entrevistador e entrevistado e onde se falou nas metas de sua gestão; do que a Embrapa espera do novo governo; de readequações de suas 42 unidades de pesquisas; de investimentos tecnológicos na agricultura familiar, na empresarial, no apoio ao desenvolvimento da piscicultura e na estratégia para o MATOPIBA.

– A Embrapa vai, com a existência ou não de uma associação ou uma superintendência para o desenvolvimento do MATOPIBA, seja lá o que for,  trabalhar com qualquer que seja a instituição que vai se encarregar desta região, que tem um potencial imenso para o desenvolvimento da agricultura brasileira – garantiu.

Leia abaixo a íntegra da entrevista:

Cerrado Rural Agronegócios (CRA) – Presidente, como é, para o senhor, o desafio de gerir os destinos da Embrapa, nestes próximos anos?

Sebastião Barbosa –  É um desafio e uma satisfação muito grande estar nesta posição tão importante para o desenvolvimento do país, presidir uma empresa tão valorosa como a Embrapa, com um quadro de pessoas muito bem treinadas, muito dedicadas, nestes 45 anos que a Embrapa existe. Produziu muito, contribuiu muito para o desenvolvimento do país, continua contribuindo e ainda contribuirá mais no futuro. Então, é uma satisfação, é um desafio enorme, mas que, com a ajuda de Deus, nós pretendemos chegar a um bom termo.

CRA – Atualmente, devido a crise econômica e política por que passa o Brasil, as pesquisas, a ciência, têm ficado em último plano. Qual a sua perspectiva, entre o orçamento do ano que vem, e os que o senhor terá nos próximos anos. Eles atendem as demandas da Empresa?

“Nós precisamos ser muito criativos para estabelecer prioridades, considerando a nossa limitação de quadros de pessoal e nossos recursos financeiros para levar esta programação avante”

Sebastião Barbosa – Na verdade, este processo é muito dinâmico. A gente nunca tem os recursos suficientes, porque normalmente aparecem muitas demandas. Eu voltei, anteontem (dia 14/11), de Rondônia. Lá encontrei uma série de oportunidades: agricultores que querem produzir urucum e inhame. A produção de carne, por lá, é fabulosa, o estado exporta para 34 países. A produção de café – café diferenciado, o robusta -, vem se destacando. Então, em cada uma das unidades da Embrapa – 42 unidades -, as equipes de pesquisadores, analistas, técnicos e assistentes, têm ideias muito inovadoras para a agricultura brasileira. E é claro que nós temos que entender que o pais vive uma situação de falta de recursos. Nós precisamos ser muito criativos para estabelecer prioridades, considerando a nossa limitação de quadros de pessoal e nossos recursos financeiros para levar esta programação avante. Mais essas dificuldades, inclusive, nos criam oportunidades. A sociedade nos paga salários competitivos que nunca atrasaram. Então, nós, que somos bem treinados, bem capacitados e trabalhamos diretamente com o setor produtivo, precisamos preparar bons projetos e negociarmos com agências de governo, com o setor privado, com organismos internacionais para superar essa dificuldade de recursos que vamos enfrentar no próximo ano.

“O mundo mudou, o Brasil mudou e a Embrapa precisa mudar para continuar apoiando o desenvolvimento do Brasil”

CRA – Uma questão um pouco delicada e nela nenhuma conotação político-partidária: durante algum tempo, a Embrapa passou por um processo que a mídia e a oposição ao governo daquele tempo chamaram de tentativa de desmonte desta estatal. Nisto a empresa caiu muito, principalmente no mercado de sementes. Mídia e oposição, fizeram com que fosse abortado no Congresso Nacional um projeto de lei que visava privatizar a parte do governo na Embrapa. Atualmente, como o senhor analisa a situação da empresa, ela se equilibrou, reentrou nos seus eixos?

Sebastião Barbosa – Eu acho que a situação da Embrapa está muito equilibrada, ela continua sendo muito respeitada, tem uma imagem muito positiva junto a sociedade, junto ao setor produtivo – dentro e fora do Brasil. Houve, é claro, como em toda empresa estatal, pessoas que têm opiniões diferentes, e nós vivemos no regime democrático e elas precisam ter liberdade para manifestar as suas opiniões. Não houve desmonte da Embrapa, ela continua forte, contribuindo decisivamente  para o desenvolvimento do país. Assim é que nós recebemos instruções, por parte do nosso ministro da Agricultura. O ministro Blairo Maggi, que quase todos os dias, desde nossa chegada aqui, nos lembra que a instrução principal dele é que a Embrapa precisa fazer um esforço ainda maior para se aproximar ainda mais do setor produtivo e isto nós temos feito. Então, a Embrapa nunca teve orientação política, não vai ter e ela é muito apreciada, muito festejada por todos os políticos brasileiros, independente de partidos a que pertençam, porque reconhecem a contribuição enorme que a empresa dá ao desenvolvimento do país. Depois de 45 anos de criação da Embrapa, nós estamos avaliando o seu desempenho para poder trabalhar nos próximos 45 anos, apoiando o desenvolvimento do Brasil. Então, nesta direção, nós vamos ter algumas correções de rumo, vamos avaliar o desempenho das unidades, rever nossas prioridades, que é um processo dinâmico de todos os organismos, principalmente os setores que trabalham com ciências e tecnologias. O mundo mudou, o Brasil mudou e a Embrapa precisa mudar para continuar apoiando o desenvolvimento do Brasil.

CRA – Que mudanças seriam estas?

Sebastião Barbosa – Uma dessas mudanças – voltando o que eu disse antes -, será um olhar muito mais direto e uma aproximação ainda maior do  setor produtivo, uma descentralização de decisões para as 42 unidades que estão espalhadas por todo o Brasil. E, além disto, o que nós temos insistido muito é o trabalho em associação com as universidades, as empresas estaduais de pesquisas, o setor privado, porque antigamente só existia a Embrapa e esta tinha que se preocupar com a produção de sementes básicas. Hoje, o setor privado é muito forte. Então, a Embrapa pode se dedicar a outros aspectos muito importantes para o desenvolvimento, como por exemplo, concentrar em atividades para o desenvolvimento da Amazônia e do Semiárido, onde está a grande população de pobres do Brasil. Assim, a Embrapa pode fazer muito para o desenvolvimento dessas duas regiões para trazer renda, empregos e dignidade para as populações dessas regiões do Brasil. É claro que continuará o seu trabalho para a melhoria das raças de animais, das variedades de plantas e inclusive trabalhando na área de aquicultura, de pesca, de florestas cultivadas, etc.

“Essas fundações, a que o senhor se refere, senhor Antônio, elas passaram por processos muito difíceis, por falta de recursos, e a Embrapa não é uma financiadora de projetos”

CRA – Na sua gestão, como deverá ser a relação entre a Embrapa e as fundações estaduais de pesquisas, que já foi muito forte, mas esses laços foram se desfazendo com o tempo e com a crise.

Sebastião Barbosa – Essas fundações, a que o senhor se refere, senhor Antônio, elas passaram por processos muito difíceis, por falta de recursos, e a Embrapa não é uma financiadora de projetos. Nós temos nossos próprios problemas. De alguma maneira, como no caso da empresas estaduais, houve um enfraquecimento muito grande dessas empresas e nós esperamos que com os governo que se instalam, a partir de janeiro, nos estados, uma atenção maior possa ser dada ao setor de pesquisas. Por outro lado, existe uma realidade muito alvissareira que é a criação das fundações de amparo as pesquisas nos estados e que tem acesso a recursos para pesquisa. Desta forma, nós temos que continuar trabalhando com as universidades, com as empresas estaduais, com as fundações e com o setor privado. Há muito recurso por pior que seja a situação. Às vezes o que falta é a existência de bons projetos. Então, trabalhando com as empresas estaduais, com as universidades, nós podemos criar as unidades mistas de pesquisas em que nós possamos compartilhar expertise, podemos compartilhar laboratórios, instalações, em movimentos conjunto. Hoje, ciência não se faz mais em voo solo. Veja o senhor, por exemplo, os prêmios Nobel de hoje: dificilmente é de uma pessoa só. É um médico no Japão, outro nos Estados Unidos; um físico na Europa, outro na Ásia. Assim são equipes de pesquisas, são grupos que estão na crista da onda. Então, aquela ideia dos pesquisadores trabalharem isoladamente é do passado. Hoje nós precisamos, cada vez, mais nos aproximar e a ciência tem que ser feita de maneira participativa, cada um fazendo a sua parte em prol de um bem comum.

“O setor privado é um fator muito importante no desenvolvimento de um país. E, felizmente, neste setor de produção de sementes, o Brasil é muito competitivo”

CRA – Presidente, durante muito tempo o forte da Embrapa foi a produção e o mercado de sementes, principalmente de soja, quando ela detinha entre 70% e 75% do mercado, sementes que inclusive abriram o Cerrado brasileiro. Hoje a empresa não tem 15% deste mercado. Na sua gestão, o senhor teria pretensão de recuperar este mercado, ou considera que esta perda faz parte da concorrência de mercado com as multinacionais de insumos e cada empresa, incluindo a Embrapa, tem seu quinhão, de acordo com a atuação de cada uma?

Sebastião Barbosa – A concorrência é um fato e nós somos participes. A ideia, hoje, é diferente. No início, no setor privado, a produção de sementes não existia. Hoje já existe este setor. O que é importante, senhor Antônio, não é que existam variedades da Embrapa no mercado, mas que as variedades que estejam no mercado tenham genética da Embrapa. Genética para resistência a estresse bióticos e abióticos, no caso de resistência a insetos, a enfermidades, a seca, a altas temperaturas, maior teor de vitamina A, por exemplo, como no caso do arroz; maior teor de proteína em mandioca e uma série de situações em que a genética da Embrapa, que tem acesso a um grande banco de germoplasma, que detém o terceiro maior banco de germoplasma do mundo. Assim, a gente pode trazer variabilidade para as variedades que estejam no mercado. Veja que não é nosso objetivo competir com o setor privado, mas sim ser parte deste processo de criação e utilização de novas cultivares, de novas variedades, com  resistências – como eu disse antes – àqueles fatores que limitam a produção, como as pragas, as doenças e as condições climáticas, considerando principalmente, o que nós temos hoje,  que é chamada de mudanças climáticas. A genética dos animais e das plantas para o futuro elas vão precisar de uma quantidade muito maior de genes, de variabilidade, do que existe hoje. E a Embrapa está atenta a isto. Este vai ser o trabalho da Embrapa: Não produzir as variedades em si e vender para os agricultores. Nós não podemos e nem devemos competir com o setor privado. O setor privado é um fator muito importante no desenvolvimento de um país. E, felizmente, neste setor de produção de sementes, o Brasil é muito competitivo.

Barbosa: "Ministro Blairo Maggi está sempre nos orientando" (Foto: Ascom/Mapa)Barbosa: “Ministro Blairo Maggi está sempre nos orientando” (Foto: Ascom/Mapa)

CRA – Em termos de apoio, o que a sua gestão espera do novo governo do Brasil?

Sebastião Barbosa – Na verdade, não é a minha gestão, é a Embrapa, que independe da nossa gestão. A Embrapa, como empresa pública, precisa continuar existindo. No setor privado, o interesse maior é o lucro. No caso de uma empresa estatal, existem aspectos em que para a empresa privada pode não dar lucro, como a agricultura familiar, como o desenvolvimento dos diferentes biomas brasileiros, resistências aos principais problemas da nossa agricultura – as doenças, as pragas -, que são própria do ambiente brasileiro. Então, uma multinacional não está interessada em investir para solução de problemas que ocorram somente no Brasil, com os que citei. Então, é por isto que uma empresa estatal brasileira, se dedicando a agricultura, é muito importante. Assim, o que nós esperamos do próximo governo é a oportunidade de continuarmos a contribuir para o desenvolvimento do país. Garantir salários competitivos para (os recursos humanos da)  Embrapa; a continuidade das operações das nossas estruturas de campos experimentais, de laboratórios, de programas de pesquisas em andamento. Então, nós precisamos de recursos para manter nossa força de trabalho e para atuarmos em diferentes sistemas de bioma, onde trabalhamos. A Embrapa trabalha com 42 unidades de pesquisas, que vão desde Boa Vista, em Roraima, até Pelotas, no Rio Grande do Sul. Essas trabalham no desenvolvimento de diferentes produtos, para o desenvolvimento de diferentes biomas. São as chamadas unidades ecorregionais; trabalham no desenvolvimento de temas prioritários como solos, instrumentação agropecuária, como a Embrapa Territorial;  como recursos genéticos e biotecnologias e uma série de outros temas. São várias unidades, com diferentes focos em produtos,  como Embrapa Trigo, Embrapa Algodão, Embrapa Arroz e Feijão, Embrapa Mandioca e Fruticultura Tropical, Embrapa Caprinos, Embrapa Gado de Leite, Embrapa Gado de Corte, entre outras. Então, essas são unidades de produtos. E as unidades  ecorregionais  que são as da Amazônia, do Semiárido, do Cerrado e de outros biomas e ecorregiões do Brasil. Elas precisam  continuar existindo,  precisam de recursos  para funcionar. É muito importante que a Embrapa se consolide cada vez mais e a gente trabalhando com os órgãos de governo, que ao assumirem a direção do país, a partir de 1º de janeiro, nós precisamos de identificar muito claramente que apoio vamos ter e quais vão ser as contribuições que a Embrapa dará para, neste contínuo de trabalho de Embrapa, desde 1976, quando ela foi criada,  até o futuro de nossa agricultura. Em 45 anos, a Embrapa mudou,   junto com os nossos parceiros, a agricultura brasileira. Quando a Embrapa foi criada, o Brasil era importador de alimentos e, hoje, o Brasil produz alimentos para mais de 200 milhões de habitantes e mais cinco vezes a população brasileira. O Brasil se tornou um grande exportador de alimentos, o grande celeiro do mundo e esta vocação do Brasil continuará e nós temos grandes possibilidades de aumentarmos muito a nossa produção e produtividades sem aumentar excessivamente a área cultivada. Por meio de tecnologias de ponta, nós podemos aumentar a nossa produção sem aumentar muito a nossa área cultivada, preservando o nosso meio ambiente, com áreas de preservação permanente, e mantendo a conservação de nossa fauna, flora e de nosso território. Muitos países criticam o Brasil por destruir o meio ambiente para a produção de alimentos. O Brasil é o país que mais preserva o meio ambiente e nós temos dados sobre isto, nós temos inclusive unidades que se dedicam a esse assunto e que subsidia aos órgãos de governos em relação a esses temas de agricultura, meio ambiente e outros aspectos que estão muito em voga hoje em dia.

“Os pesquisadores da Embrapa Algodão estão no Maranhão, no Piauí e a ideia é fortalecer a presença da Embrapa Algodão e de outras unidades da Embrapa no MATOPIBA. Um centro de pesquisa não pode ir atrás do produto”

CRA – O senhor chefiou uma unidade, um centro nacional de pesquisa, cujo foco, o algodão, tem, hoje, outra realidade, muito diferente daquele tempo da criação da Embrapa Algodão. Paraná perdeu a condição de grande produtor da fibra, a Paraíba idem – predominando, atualmente, apenas o algodão colorido. Dominam a produção de algodão, hoje, pela ordem, o Mato Grosso e a Bahia, mais precisamente o oeste da Bahia. Isto não seria motivo para transferir aquela unidade da Paraíba para Mato Grosso ou oeste da Bahia? O que justifica ainda a Embrapa Algodão na Paraíba?

Sebastião Barbosa – A Embrapa desenvolveu um processo bastante inovador de trabalhar com os diferentes produtos de nossa agricultura. A sede da Embrapa Algodão está em Campina Grande, na Paraíba. Mas, equipes dela estão trabalhando no Cerrado; estão trabalhando perto de Goiânia; estão trabalhando em Sinop, no Mato Grosso; estão trabalhando em Luís Eduardo Magalhães, no oeste da Bahia. Estamos trabalhando, inclusive, em Palmas. Tem gente da Embrapa Algodão trabalhando lá para desenvolver o programa de algodão. Os pesquisadores da Embrapa Algodão estão no Maranhão, no Piauí e a ideia é fortalecer a presença da Embrapa Algodão e de outras unidades da Embrapa no MATOPIBA. Um centro de pesquisa não pode ir atrás do produto. Trigo – a Embrapa Trigo está lá em Passo Fundo, no Rio Grande do Sul e o trigo está caminhando para o Cerrado, o trigo tropical, que foi desenvolvido, inclusive, com a participação da Embrapa Trigo. Então, esta situação, a revisão das unidades, a reestruturação das unidades da Embrapa é um processo que está sendo estudado, mas no momento não há previsão de mudança de local de uma unidade ou outra, de extinção de unidades e também de criação de novas unidades da Embrapa, porque nós entendemos, perfeitamente, as limitações em termos de recursos e nós temos um bom número de unidades muito bem localizadas que podem dar conta de todos os desafios da agricultura brasileira. Vamos precisar de fazer reajustes em algumas delas, talvez uma concentração maior de técnicos, de cientistas para solução de alguns dos problemas. Mas a estrutura da Embrapa, ela existe, ela está sendo revisada, revisitada e vamos ter que seguir um processo muito participativo dos empregados da Embrapa, do setor privado, seguindo sugestões dos diferentes setores envolvidos na agricultura.

“O que precisamos é incentivar o associativismo entre os pequenos produtores, porque, associados, ele podem aceder ao mercado, podem ter acesso a insumos de maneira mais barata e assim poder produzir de maneira competitiva com os grandes”

CRA – Que atenção a agricultura familiar terá na sua gestão?

Sebastião Barbosa – Nós temos insistindo que a Embrapa trabalha com todo tipo de agricultura: com a grande agricultura, com a pequena agricultura de base familiar; trabalha com a agricultura orgânica, com a agricultura agroecológica, com a agricultura transgênica, usando organismos geneticamente modificados;  trabalha também com a agricultura convencional, que não usa organismo geneticamente modificados. Nós trabalhamos com todo o tipo de agricultura. No caso da agricultura familiar – eu sou filho de um agricultor sem terra, familiar. Então, é no campo onde está localizada grande parte da pobreza brasileira, a chamada pobreza rural. Há um espaço muito grande para o desenvolvimento da agricultura familiar. Existe o que os economistas chamam de intervenções de mercado, que é a prática dos pequenos produtores comprarem os insumos bem mais caro no mercado do que os grandes produtores organizados em associações. E, depois, eles não têm acesso ao mercado como as grandes associações de produtores. O que precisamos é incentivar o associativismo entre os pequenos produtores, porque, associados, ele podem aceder ao mercado, podem ter acesso a insumos de maneira mais barata e assim poder produzir de maneira competitiva com os grandes. Então, há uma necessidade de levar à eles a tecnologia que a Embrapa desenvolve, quer seja  uma nova variedade, que serve tanto para o pequeno, quanto para o grande produtor, não existe distinção, mas existem aspectos que precisam  ter uma atenção especial. As grandes corporações se encarregam, por exemplo, de desenvolver as grandes maquinas para a grande agricultura, mas não existe indústria interessada em desenvolver pequenas máquinas para a agricultura familiar. Então, por exemplo, a Embrapa está desenvolvendo agora uma colheitadeira de algodão que colhe uma fileira. Com os custos de mão e de obra e com a dureza do trabalho no meio rural é difícil de encontrar pessoas que estejam interessadas em colher algodão. Então, na verdade, neste caso, nós precisamos desenvolver pequenas máquinas para a agricultura familiar, para que ela possa concorrer com a agricultura empresarial, porque até mesmo que a agricultura familiar tem que ser vista como negócio e esses agricultores precisam se organizar para aceder a tecnologias, a equipamentos, a insumos e ao mercado principalmente.

CRA – Presidente, estudos feitos aqui na Embrapa revelaram a necessidade de um acompanhamento sistemático do desenvolvimento social e econômico da região do MATOPIBA, o que motivou a criação de uma agência federal com este objetivo – muito importante para a nossa região -, mas extinta pelo governo Temer. O que senhor pensa dessa agência e da região; o senhor  defenderia a volta da agência? Se não, qual seria a atenção, na sua concepção, que o MATOPIBA deveria ter da Embrapa?

Sebastião Barbosa – O MATOPIBA tem recebido muita atenção, com a existência de instituições voltadas para a região, ou não. A Embrapa Algodão, por exemplo, tem um programa de desenvolvimento de cultivares, de variedades, de algodão com resistência ao bicudo, neste caso financiado pelos próprios agricultores, via Associação Brasileira de Produtores de Algodão (Abrapa). Esse programa vai beneficiar os produtores de algodão do Tocantins, da Bahia, do Maranhão e do Piauí, onde se planta algodão, onde existem essa e outras pragas. A possibilidade de piscicultura, de criação de peixes, de aquicultura no MATOPIBA é uma realidade. As possibilidades de irrigação no MATOPIBA são enormes e os especialistas da Embrapa estão trabalhando nos diferentes estados. Agora, a Embrapa é uma empresa para desenvolver a ciência e a tecnologia e inovação. Este aspecto de uma instituição regional de desenvolvimento, a Embrapa não pode se encarregar deste tipo de atividade. Ela pode apoiar.  Mas a criação ou não, a condução, ou não, deste tipo de atividade precisa de um envolvimento do governo central e dos governos estaduais e a Embrapa vai, com a existência ou não de uma associação ou uma superintendência para o desenvolvimento do MATOPIBA, seja lá o que for, a Embrapa vai estar trabalhando com qualquer que seja a instituição que vai se encarregar desta região que tem um potencial imenso para o desenvolvimento da agricultura brasileira.

Pesca e Aquicultura,a mais nova unidade de pesquisa da Embrapa (Foto: Embrapa)Pesca e Aquicultura,a mais nova unidade de pesquisa da Embrapa (Foto: Embrapa)

CRA – O Brasil tem um dos maiores potenciais para a produção de pescados, em área continental, do mundo. Tem, facilmente, potencial para chegar a 4 milhões de toneladas/ano, o que o tornaria um dos maiores produtores do mundo, entretanto, produziu, no ano passado, pouco mais de 600 mil toneladas. Nós temos, no Tocantins, a mais nova unidade de pesquisa da Embrapa, que é a Pesca e Aquicultura. Na sua gestão, qual seria a atenção dispensada para esta unidade e para o fomento à pesca e à aquicultura?

Sebastião Barbosa – Esta atenção da Embrapa se dará em diferentes aspectos. Existe o aspecto, por exemplo, cultural, que o consumo de peixe no Brasil é muito pequeno ainda e essa região do MATOPIBA, a tradição, a cultura, é diferente, é de consumir carne. A existência de centenas de espécies de peixes que existem nas águas interiores, que podem ser domesticadas, que estão sendo domesticadas…

“Eu acho que, na verdade,  isto é orientando pelo mercado. Isto não pode ter viés político, ou filosófico”

CRA –… me refiro em nível nacional, também…

Sebastião Barbosa – … Exatamente, não só no MATOPIBA, mas como em outras regiões do Brasil. Eu voltei, como lhe disse antes, há dois dias, de Rondônia, o estado que mais produz peixes nativos, uma beleza e já vai começar a exportar, já está exportando e vai continuar exportando pescados. A Embrapa…

CRA – … o que deverá ter mais atenção da Embrapa: os nativos ou os exóticos?

Sebastião Barbosa – … Eu acho que, na verdade,  isto é orientando pelo mercado. Isto não pode ter viés político, ou filosófico. O camarão é importante para o nosso mercado, para o consumo da população, mesmo não sendo de origem brasileira, por que, não?  Por que não estimular a produção? Mas é claro que nós temos espécies de peixes que são muito importantes para a nossa cultura, para a nutrição do nosso povo e que abre um potencial enorme  para exportação. Nós temos agora, está em funcionamento, a unidade da Embrapa Pesca e Aquicultura, que está localizada em Palmas, no Tocantins, é uma das mais novas unidades da Embrapa e acaba de ser aprovado um grande projeto, que se chama BRS Áqua, com financiamento do BNDEs, da Embrapa, do CNPq e da Secretaria Especial de Aquicultura e Pesca, ligada à Presidência da República. É um projeto de R$ 57 milhões, em que cada um desses parceiros contribuem. É claro que a contribuição maior, de R$ 45 milhões, vem do BNDES, mas a Embrapa e a SEAP, cada uma delas contribui, participa com R$ 6 milhões. É um projeto de piscicultura, que envolve 22 centros de pesquisas, 50 parceiros públicos e onze empresas privadas. Então, é um grande projeto que criará condições, que desenvolverá tecnologias, fazendo com que o pescado brasileiro seja competitivo, que nós fomentemos o consumo de peixe no Brasil e que estejamos em condições de competir com o mercado internacional de pescado.

CRA – Muito obrigado, sua entrevista foi do tipo que todo editor gosta: respostas objetivas, lineares, sem zig e zag, fácil de ser editada.

Sebastião Barbosa – Nada, o senhor é que é muito generoso.

——————————————————————————————————————————————–

Barbosa e Oliveira,em conversa sobre o PISCISHOW e o AVISULEITE (Foto: Jorge Duarte)Barbosa e Oliveira,em conversa sobre o PISCISHOW e o AVISULEITE (Foto: Jorge Duarte)

Presidente é convidado para abrir PISCISHOW e AVISULEITE

Nesta oportunidade, antes desta entrevista, este entrevistador, apresentou os projetos das edições 2019 do PISCISHOW e do AVISULEITE – dos quais é coordenador,  ao presidente Sebastião Barbosa, convidando-o para a abertura solene dos eventos conjuntos, dia 5 de junho, em Palmas. Os dois eventos serão realizados, no Espaço Cultura José Gomes Sobrinho, entre dias 5 e 7 de junho.

Os eventos conjuntos que focam na piscicultura, avicultura, suinocultura e leite são realizações da revista Cerrado Rural Agronegócios e do Governo do Tocantins, por meio do Conselho Estadual de Desenvolvimento Econômico/Secretaria de Desenvolvimento Econômico, Ciências, Tecnologias, Cultura e Turismo (Seden).

LEAVE A REPLY

Please enter your comment!
Please enter your name here