Publicada em 08/03/16

Apenas um desabafo de mulher

Ser mulher é um ato de coragem; há momentos em que, infelizmente, é preciso nos impor

 

Dia desses, passeando pelas minhas redes sociais como sempre faço me deparei com o seguinte comentário de um internauta: “Parabéns pela postura deputada. Única mulher na Assembleia Legislativa, mas a senhora consegue ser mais macho que todos os outros deputados juntos”.

 

Tomei um susto tremendo porque vinha de uma semana dura em que tive que levantar a voz na tribuna para defender o meu direito de legislar e não ser atropelada pela base governista, bem como defender o interesse da população.

 

Mas o meu susto foi com a palavra ‘macho’ e nas reflexões que ela trouxe consigo.

Quebrei tabus, fui apedrejada pela sociedade machista e falso moralista. Por gente que propaga mentiras sem saber o que realmente há por trás das maldades enviadas por covardes que se escondem na internet



Aquilo ficou ecoando na minha cabeça. Será que o parlamento tem me embrutecido? Será que é preciso agir como homem para fazer e se dar bem na política?

 

Será que se eu não tivesse me posicionado daquela maneira mais ríspida teria sido ouvida pelos meus colegas de parlamento? Refleti muito e a resposta para todas essas perguntas foi não.

Sendo a única mulher eleita em Mato Grosso no último pleito, a cada dia que passa concluo que a capacidade de articulação e todo o potencial do sexo feminino tem sido subestimado na política.

 

E há momentos em que, infelizmente, é preciso nos impor sim para fazermos valer nossos direitos.

 

Sabe quando te disseram que a profissão que você escolheu é “muito difícil” para mulheres?

 

Não acredite nesse tipo de opinião, pois nós somos capazes de exercer qualquer carreira que desejarmos.

 

Mantenham o foco, mulheres, e acreditem no seu potencial. Ser mulher é questionar os padrões da sociedade, é um ato de coragem.

 

Acredite no seu poder, seja firme e mostre para o mundo que quem manda na sua vida é somente você.

O ano que passou foi para mim exercício constante disso, afinal sou mulher, separada, mãe solteira de dois filhos e sim, tenho uma vida além do parlamento.

 

Quebrei tabus, fui apedrejada pela sociedade machista e falso moralista. Por gente que propaga mentiras sem saber o que realmente há por trás das maldades enviadas por covardes que se escondem na internet.

 

Mas, graças ao meu trabalho, consegui também com que as pessoas conhecessem minha outra face e a minha capacidade política.

Um recente estudo realizado pela União Interparlamentar revisou o ranking da representatividade feminina nos parlamentos mundiais. Entre os 145 países analisados, o Brasil alcançou a 115ª posição, perdendo para países do Oriente Médio como Iraque, Síria, Emirados Árabes, Arábia Saudita, países que em geral não possuem grande participação feminina em todos os setores, mas que ainda é assim superaram o Brasil no quesito participação política.

 

Os números assustam, mas é necessária a reflexão sobre os mesmos para ter a percepção que se aumentou a emancipação feminina e que ainda é muito tímida a participação da mulher na política brasileira.

Embora representem 51,4% dos eleitores brasileiros, a participação das mulheres na Câmara dos Deputados é de 9%, número semelhante aos 10% registrados no Senado, isto em um país com 103,5 milhões de mulheres. Isso se aplica em regra para Mato Grosso.

 

E sabe o que mais dói? É saber que as mulheres estão cada vez mais retraídas quando o assunto é política, justamente por essa mentalidade de que política é coisa de homem. Oras, e vai continuar sendo enquanto nós não nos posicionarmos, não erguermos nossas vezes, não falarmos no mesmo tom, não formos ouvidas.

Mas tudo isso passa por uma mudança de atitude e conduta de todas nós. Às vezes penso que o machismo começa no sexo feminino. Quer um dado estatístico?

 

Sou a única mulher eleita no último pleito, mas fazendo uma análise do perfil das mais de 31 mil pessoas que me seguem em uma das minhas redes sociais, eis um número que me fez ligar o alerta: quase 70% dos meus seguidores são homens, das mais diversas idades.

 

Então, nesse Dia Internacional da Mulher fica a pergunta: cadê as mulheres se interessando por políticas públicas e leis voltadas para elas? Não era para elas fazerem da única mulher eleita, sua represente e porta-voz dos seus direitos?

 

Eu volto a repetir: sou mulher que vota em mulher. Sempre fiz questão de prestigiar porque na minha cabeça sempre passava o quanto a vida e os problemas dela deviam ser parecidos com os meus e o quanto ela poderia governar ou legislar para mim.

Hoje tenho certeza.

JANAINA RIVA, 27 anos, é a única deputada estadual por Mato Grosso. Eleita com 48.171 votos, é mãe de dois filhos e bacharel em Direito.